quinta-feira, 7 de outubro de 2010

IV Ciclo de Leituras Públicas começa nessa quinta dia 07/10/2010

O TUSP e seu Núcleo de Experiência e Apreciação Teatral da capital convidam os interessados para a quarta edição do Programa TUSP de Leituras Públicas

que, a cada ciclo, propõe o dizer de peças de autores eminentes do teatro moderno e contemporâneo. As peças são lidas por funcionários do corpo artístico

do TUSP, por atores em formação e pelo público presente, a partir da mediação dos Orientadores de Arte Dramática do TUSP. Espera-se que o programa possa criar públicos específicos que acompanhem os ciclos, abrindo espaço para a experiência da plateia.
O início do programa ocorre no dia 07/10 com uma palestra do prof. Wellington Andrade, doutor em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e vice-diretor da Faculdade Cásper Líbero.
A partir daí, a cada semana, se dará a leitura de obras representativas de importantes nomes do drama moderno.



Nome da atividade: Programa TUSP de Leituras Públicas
Período: de 07 de outubro a 16 de dezembro de 2010
Horário: às quintas-feiras, das 15h às 18h
Informações: TUSP - Teatro da USP, R. Maria Antônia, 294 - Consolação
Telefone: 11 3123-5233
Vagas: não há número limitado, nem exigência de inscrição
Local: Sala Experimental Plínio Marcos do Teatro da USP - TUSP, R. Maria Antônia, 294 - Consolação
Pré-requisito: não há
E-mail: tuspmkt@usp.br

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Programa TUSP de Leituras segue com novo ciclo na Casa da Dona Yayá


O Programa TUSP de Leituras Públicas propõe a cada ciclo o dizer de peças de autores eminentes do teatro moderno e contemporâneo. As peças são lidas por funcionários do corpo artístico do TUSP, por atores em formação e pelo público presente. O programa participa do Núcleo de Experiência e Apreciação Teatral do TUSP, que conta com a mediação de Orientadores de Arte Dramática.

Neste ciclo, o Teatro da USP - TUSP propõe, com a parceria do Centro de Preservação Cultural - Casa da Dona Yayá, o dizer de peças de um ato de Anton P. Tchékhov, em homenagem aos 150 anos de nascimento do autor russo.

Confira a programação:
5/08 - Os males do tabaco
12/08 - O urso
19/08 - O pedido de casamento
26/08 - O canto do cisne

Período: Agosto de 2010.
Horário: Quinta-feira, das 16h às 17h30
Vagas: não há número limitado, nem exigência de inscrição
Local: CPC-USP: Rua Major Diogo, 353, Casa da Dona Yayá.
ENTRADA GRATUITA

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Astros, Patas e Bananas



Sexta-feira, pós feriado: estréia "Astros, Patas e Bananas" no TUSP - Teatro da USP. Grata surpresa o trabalho de Roberto Gill de Camargo como diretor, uma vez que em geral é lembrado pelo seu trabalho como iluminador. Gill é autor de uma das únicas - senão a única - publicação sobre Iluminação Teatral no país e nosso desconhecimento do que se produz no interior fica patente quando existe um grupo, o Katharsis, que há anos investiga e produz espetáculos como este, premiado inclusive pela Cooperativa de Teatro e um dos destaques do último FENTEPIRA (Festival de Teatro de Piracicaba).

Além do interesse em saber mais sobre o que se produz fora da Capital, há que se mencionar ao menos três aspectos fundamentais do espetáculo: o lirismo da proposta, a qualidade do elenco - que embora jovem é tecnicamente muito bem preparado e a precisão do diálogo entre luz e ação cênica.

"Astros..." fala da relação do homem com seus pares, independentemente de nacionalidades e credos - em cena, temos diversos tipos que representam figuras de culturas diversas, falando nas línguas correspondentes (muito pouco de português aparece, mas a sonoridade e musicalidade das línguas estrangeiras, através das situações apresentadas, garante completamente o entendimento do que se passa). Outra camada é a relação com o tempo, a eternidade dos astros, o ciclo permanente de renascimento. Daí o lirismo da proposta, que não se prende à uma fábula definida, mas que aposta no encantamento, como uma "poesia no espaço".

Os jovens integrantes do elenco são um bom exemplo de como a interpretação deve estar amalgamada à proposta de encenação. A luz, sem grandes efeitos mas de uma simplicidade difícil, garante pela operação do próprio Gill o status de mais um ator em cena, que dialoga o tempo todo com a ação.

Por fim, há que se lembrar ainda a direção musical, singela e poética, ao vivo, capitaneada por Janice Vieira.

Assistam "Astros, Patas e Bananas". A experiência direta vale mais do que qualquer tentativa de descrição.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Por quanto tempo se pode contemplar outra pessoa?


A pergunta contida no nome do espetáculo pode nos oferecer uma leitura diferenciada daquilo que os dois atores nos apresentam em seu trajeto cênico. Durante uma hora, nos deparamos com vários exercícios teatrais que se constituem num campo que está para além da interpretação; o espaço cênico proposto é espaço de diálogo de pensamentos, isto ocorre a partir da urdidura de idéias e elementos memoriais compartilhados com o público. Dois atores não são apenas dois atores, são também – como esquecer? - duas pessoas com histórias pessoais que transbordam sua vivência para a cena, concretizando através de imagens poéticas o intercruzamento de textos pessoais e de obras de autores como Carlos Drummond de Andrade, Susan Sontag e Miranda July.

Por quanto tempo se pode contemplar uma pessoa? Estamos falando de tempo objetivo, como os 60 minutos nos quais a peça se realiza, ou do tempo dilatado vivido por cada um dos atores? O espetáculo aponta uma possibilidade cênica de prática do trabalho do ator em seu universo de construção e ficcionalização de referências pessoais através da ação teatral e suas poéticas de compartilhamento. Estas referências assumem nuances de irradiação plural, ou seja, atingem um patamar de linguagem comunicável, de modo que a matéria trazida do universo particular de cada um dos participantes do espetáculo, transfere-se do plano da apreensão subjetiva para o plano da apreensão ficcionalizada, passível de leitura e ressignificação pública.

O que chama bastante atenção no espetáculo é este mapeamento da construção do ator e as questões que dele se evolam: de onde parte o princípio? Qual a fronteira entre ator, persona e personagem? Em quais instâncias é permitido deixar a própria história ocupar, em sua forma bruta e original, a cena? Em que medida ela não exige, para ser revelada, uma configuração metafórica? As questões são intuitivamente desenhadas sem perspectiva de resposta, o grande desafio do espetáculo é o despertar da busca e não de sua compreensão.

No jogo-cena, por exemplo, no qual fotos antigas dos atores e imagens aleatórias ficam dispostos em cena emoldurados por porta-retratos, a composição narrativa e a relação entre depoimento real construção criativa são um dos pilares da ação e apresentam ao público uma perspectiva da cena tornando-se intrínseca ao processo de desenvolvimento das personas em cena. Um dos atores faz uma análise narrativa sobre a foto e em seguida, em uma nova rodada do jogo, o outro ator realiza uma segunda análise narrativa – muitas vezes fantástica ou fabular – sobre a mesma fotografia, de modo a colocar frente a frente o real e o imaginário sob a perspectiva dos dois propositores, num tom de improviso recém-ensaiado. Este momento do espetáculo torna-se relevante na medida em que desvela por completo procedimentos e escolhas realizados durante a elaboração do espetáculo, é possível deslocar o espetáculo em tom de objeto concluído para um ensaio aberto, no qual ainda existe a primeira aposta cênica e o artesanato das escolhas que surgem palpavelmente em cena, ou apenas permeiam o espetáculo como inspiração ou mote inicial de criação.


Paloma Franca


para ver o teaser do espetáculo, clique aqui!

sábado, 10 de abril de 2010

Aconteceu no TUSP



Em 01/04 tivemos aqui no TUSP a abertura do novo Ciclo do Prgrama TUSP de Leituras Públicas. Essa nova fase da atividade propõe a leitura pública de textos teatrais que, em momentos históricos distintos, colocam o feminino ou a mulher como elemento de ruptura.
Celebrando esse novo ciclo recebemos a atriz Lucia Romano que realizou uma palestra sobre o tema central das leituras - a explosão do feminino.


As leituras continuam acontecendo até o dia 27/05, aqui no TUSP sempre às quintas-feiras a partir das 15h.


PROGRAMAÇÃO COMPLETA:


III Ciclo de Leituras Públicas - A Explosão do Feminino


01/04 - Abertura - com Lucia Romano*

08/04- Eurípides - Medéia (431 a.C.)

15/04 - William Shakespeare - Macbeth (1601)

22/04 - Henrik Ibsen - Casa de Bonecas (1897)

29/04 - Bertolt Brecht - A Mãe Coragem (1939)

06/05 - Eugene O'Neill - Longa Jornada Noite Adentro (1941)

13/05 - Samuel Beckett - Dias Felizes (1961)

20/05 - Heiner Müller - Medeamaterial (1982)

27/05 - Encerramento - com exibição comentada do vídeo Medeamaterial, na encenação de Anatoli Vassiliev


* Lucia Romano é formada em Teoria Teatral pela ECA, mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-São Paulo e doutora pela ECA. Tem experiência em interpretação teatral nos segmentos de corporeidade, gênero e processos de criação.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Mostra Experimentos

A Mostra Experimentos entra na terceira semana, com a seguinte programação:


Segunda (05/04) - "Sobre esta Cidade" (CAC), último dia

Quarta (07/04) - "Estado Rinoceronte" (FASCS)

Quinta (08/04) - "O que não disseram" (FASCS)

Sexta (09/04) - "Trânsito Livre" (UNICAMP)

Sábado, Domingo e Segunda (10, 11 e 12/04) - "Madrid 36" (CAC)


Os trabalhos anteriores contemplaram ensaios de pós-graduação, com a participação do CEPECA (Centro de Pesquisa em Experimentação Cênica do Ator da Universidade de São Paulo) apresentando a pesquisa de nove de seus integrantes, nos níveis de Mestrado, Doutorado e pequisa livre; estudos e exercícios cênicos, com participações do Departamento de Artes Cênicas da ECA-USP ("Por quanto tempo se pode contemplar outra pessoa" e "Sobre esta cidade") e da Escola Livre de Santo André ("Dias de Campo Belo" e "Curral").


quinta-feira, 18 de março de 2010

Marcelo e Marcela - Uma Experiência de "Escuro"

foto: Lenise Pinheiro

Eu poderia dizer que gosto desta peça porque nesta peça falta o encontro polifônico de palavras que eu uso habitualmente, e que portanto são palavras que me encantam desde os primórdios, quando visitei minha primeira estrada de palavras.

É curioso que neste dia pós-espetáculo eu tenha prestado tanta atenção aos termos que uso cotidianamente, quase sem notar, percebendo em minha memória imagens silenciosas que ficaram impregnadas em lugares de além-razão. Onde estarão escondidas as palavras que não digo? Em quais pernas ou braços ou lembranças, em quais vazios?

Escolhi para este texto crítico a conversa, entendi ao ver a peça que só assim eu poderia expressar o que restou de idéia neste tempo que já não é mais o da realização teatral, e sim o do pensamento sobre a realização teatral, a elaboração do espetáculo pelo viés do espectador. Tudo aqui escrito, foi suscitado pela experiência do espetáculo e pelo compartilhamento posterior com outros espectadores, na mesma noite.

Convidei dois amigos para irem ao TUSP junto comigo, chegamos um pouco atrasados, na correria para pegar os ingressos. Ficamos no rabo da fila um pouco apreensivos com medo de não conseguir bons lugares na platéia. Agora eu me pergunto se não é um equívoco pensar no bom lugar da platéia quando o espetáculo não segue o rigor da hierarquização dramática na qual o espaço ocupado pelo espectador delimita a visão e a possibilidade plena de visualização e construção de ponto de vista sobre o que é visto. As escolhas cenográficas da peça propõem frontalidade até para as cadeiras mais laterais da platéia. Não uma estrutura rígida, que obriga o espectador a relacionar-se com a obra como se a cena fosse um alvo e o olhar, prestes a abatê-lo, não pudesse cometer erros. A frontalidade presente no espaço cênico do espetáculo Escuro é como a frontalidade presente no quadro de Monalisa pintado por Da Vinci: não importa o ângulo de visão, o observador é sempre engolido pelos enigmáticos olhos da moça.

Burburinhos na escuridão do teatro nos minutos que antecendem o início do espetáculo, e meu amigo Marcelo comenta sobre Cachorro Morto, outro espetáculo do grupo que está em cartaz no Teatro Imprensa; ele diz que tem vontade de acompanhar o grupo como espectador desde que assistiu ao Cachorro. Eu não vi o Cachorro, mas depois de experienciar o Escuro, fiquei curiosa.

A personagem do menino é quase uma linha-guia que conduz o espetáculo. Marcela – uma das pessoas que me acompanhou – depois atentou-me para o fato de que ele é surdo e precisa dos óculos justamente para ler os lábios dos outros personagens que o procuram para revelar segredos e angústias que não podem vir à tona no cotidiano de um clube de lazer, lugar onde se passa a trama. Em minha leitura imediata, pensei ser o menino uma figura fugidia que perdia-se em seu imaginário, trazendo para o espectador seus pensamentos infantis sobre a ausência do pai, presentificando-o através da história do polvo no fundo da piscina do clube – uma mentira talvez contada pelo pai para evitar que o menino sofra um afogamento tentando chegar até o fundo. Os óculos, neste viés, me pareceram um elemento de conexão entre infância e obediência ao mundo adulto. Ao assimilar também a perspectiva de Marcela, imediatamente associei o menino dos óculos a um conto de Maria Lúcia Medeiros chamado Zeus ou A Menina e Os Óculos, no qual uma menina ajuda sua mãe no restaurante, todos os sábados, e para aproveitar este dia intensamente, livra-se dos óculos, respresentantes da clareza cotidiana.

“Para o sábado ela se guardava, se dava inteira, menina ainda. Ninguém desconfiaria que a menina antes de penetrar no cenário tirava os óculos e, míope, percorria as mesas, vendo as silhuetas dos fregueses, não vendo nariz nem cílios.

Ninguém saberia que ela usava óculos de lentes claras e que ela dispensava a nitidez e algumas formas. Que era como se visse tudo pelas suas próprias lentes e mergulhasse assim no cenário agradável com cheiro de sábado, com barulho de sábado, com imagem não muito nítida que ela recobria do jeito que bem entendia e queria, sem medo, sem óculo, ela que os usara sempre desde muito tempo, para ver melhor...”.

O nome do conto, Zeus ou A Menina e Os Óculos, já aponta a idéia de esclarecimento quase onisciente da menina; ela que aos sábados percebe as coisas da maneira que lhe satisfaz, pode também escolher, ao colocar os óculos, vê-las da maneira como são, nitidamente. A Onisciência divina está, portanto, na escolha metafórica da criação correlacionada à realidade. Aquele que tudo sabe e tudo vê, sabe o quanto vê, da forma como escolhe ver. Zeus é aquele que se permite enveredar pelos caminhos tortuosos da criação metafórica em meio à existência concreta das coisas.

Também em Campo Geral, conto de Guimarães Rosa, os óculos aparecem como formas de elucidação do mundo; o jovem Miguilim depois de passar por várias etapas dolorosas de amadurecimento e despedida da infãncia na cidadezinha de Mutum, encontra seu mais surpreendente acaso transformador: o Doutor José Lourenço, médico visitante da cidade que percebe a miopia no garoto e o presenteia com um par de óculos. Depois de tanto ver à seu modo as transformações e os sofrimentos de uma infância que se esvai, Miguilim ao usar os óculos confronta o mundo da maneira que reza a verdade dos homens: pela emocionante e devastadora perspectiva do real.

O menino de óculos do espetáculo Escuro, então pode ser colocado nestes dois lugares de interpretação: ele quase toca neste real devastador, mesmo quando envolve-se muito intensamente com a própria imaginação, tecendo perspectivas criativas sobre as histórias que os outros freqüentadores do clube contam em confissão secreta; assim como está sempre à mercê da organização adulta, guardando segredos, preservando medos e renúncias que em alguma medida o salvam dos perigos.

Neste aspecto, percebemos que a abordagem da dramaturgia e encenação de Leonardo Moreira não se constitui apenas como uma reflexão sobre a impossibilidade da comunicação por conta de deficiências físicas (o grupo tem como referência as correspondências trocadas entre a escritora inglesa Helen Keller, que era cega, surda e muda, e sua professora Annie Sullivan, que sofria com a perda gradativa da visão; e histórias verídicas relatadas pelo neurologista Oliver Sacks); muito mais do que tratar da realidade de pessoas que fisicamente não escutam, não falam, não vêem, Leonardo Moreira constrói uma narrativa sensível redimensionando o ponto de vista do espectador a partir da ausência destes elementos que constituem e definem a plenitude das relações sociais.

A escolha pela alternância entre narrativa e diálogo oferece mais densidade para a composição e desenvolvimento da trama; os diálogos se realizam dentro da possibilidade de cada universo; o surdo-mudo, por exemplo, comunica-se através de libras, entretanto o público, mesmo eventualmente desconhecendo a linguagem, não fica completamente alheio ao discurso, os cortes narrativos transpõem para o espectador, não literalmente, a trajetória individual dos personagens, transformando-os em elementos contadores da própria história, trazendo à tona a figura dos atores, que doam seus nomes para os personagens numa fusão poética revelando autoralidade e método criativo no desenvolvimento da interpretação.

A consolidação da narratividade ocorre dentro do tempo dramático, quebrando-o em episódios. Como vírgulas entre os diálogos, quase como rubricas dramatúrgicas, o discurso narrativo surge ora para contextualizar os acontecimentos, ora para problematizá-los. Em outros momentos, este distanciamento narrativo desafia o público a imaginar se a compreensão do espetáculo está de fato na palavra, se precisa ser alcançada na plenitude da comunicabilidade usual, ou se estamos testemunhando uma história como tantas outras, que pulsando verticalmente na pluralidade, nos atinge de maneira crítica e diferenciada – o espetáculo inicia um processo de multiplicação de pontos de vista tal qual a experiência oferecida pelas lentes dos óculos de grau ou pela falta delas. Tal qual a experiência de tapar um dos olhos e entender o que é enxergar de um lado só. Como a experiência de tapar os dois ouvidos e atingir o mundo através do silêncio.


por Paloma Franca

segunda-feira, 8 de março de 2010

Correndo com as Meninas

Com o seu espetáculo Meninas, Corram! que esteve em cartaz no TUSP de 05 a 28 de fevereiro, a Cia NuMiollo de Salvador criou três ações paralelas que contribuíram para uma maior fruição da obra. Alda Maria, atriz e criadora propôs uma experiência prática em torno da pesquisa que realizou para a montagem do espetáculo, além de dois debates: "O corpo feminino e a dramaturgia autobiográfica", com o dramaturgo Eduardo Chatagnier e "A performance do corpo feminino ou o corpo feminino em performance?" com a participação de Daniela Araújo e Thaíse Nardim. Alda ainda falou sobre o histórico do grupo e transtornos alimentares, enfoque principal do espetáculo que surgiu a partir de uma experiência vivida por ela.



Programação Março - TUSP

O TUSP segue com o espetáculo "Escuro" até dia 21 de março. Em seguida, começa a MOSTRA EXPERIMENTOS 2010, que reúne trabalhos do Departamento de Artes Cênicas na ECA-USP, do Instituto de Artes da UNICAMP, da Escola Livre de Santo André e da Fundação das Artes de São Caetano do Sul.

Apresentando a MOSTRA, posto aqui as palavras do Prof. Dr. Felisberto Sabino da Costa, autor do texto de abertura do programa:

"Uma parcela significativa do teatro que se faz na cidade de São Paulo provém (de distintos modos) do ambiente universitário. Nesse sentido, questões relativas à academia quanto à criação artística, como, por exemplo, a articulação teoria-prática, são repensadas face aos processos artísticos gestados nessa ambiência. Ainda que possa ser tida, por alguns, como junção antagônica, a superação dessa aparente dicotomia pode ser observada na cena contemporânea paulistana, em que grupos (que se nomeiam de múltiplas formas, indicador das ideologias dos ajuntamentos) ocupam espaços em diversas regiões da cidade. Espraiando-se em toda a urbe, coletivos partilham não a idéia de uma metrópole policêntrica, mas, talvez, a concepção de uma rede urbana sem um centro determinante e determinado. Em seu continuo modificar-se, São Paulo compõe geografias dúcteis, tensionando riqueza e pobreza, delineando espaços antagônicos na geometria da cidade.

A MOSTRA EXPERIMENTOS TUSP 2010 vem ao encontro dessas questões, configuradas no âmbito cênico. Um fato comum que perpassa todos os experimentos diz respeito à dramaturgia, vista não como algo externo ao processo da cena. No seio de muitos coletivos, a autoria do espetáculo desloca-se de um único atuante e reveste todo o conjunto em diversos matizes e interações. As assinaturas, ao mesmo tempo em que pontuam as individualidades dos criadores, compõem um mosaico de tenções compartilhadas. Em alguns casos, a fatura textual faz surgir monologias que carecem de estruturas dramatúrgicas que a suportem plenamente. Outra questão diz respeito ao teatro em espaços abertos que busca na cidade a matéria para a sua criação, em que a rua não é apenas um elemento cenoplástico, mas matéria instauradora de situ-ações. É importante observar que esses Experimentos não se constituem em eventos independentes da nossa contribuição: a experiência vivenciada, como espectador, é fundamental e integra o conceptivo cênico dessas produções.

Reunindo escolas técnicas e de níveis superior, contemplando a graduação e a pós-graduação, a MOSTRA EXPERIMENTOS 2010 traz à cena criações solo e coletivas oriundas da Escola Livre de Teatro de Santo André (ELT), da Fundação das Artes de São Caetano do Sul (FASCS), do Departamento de Artes Cênicas da ECA/USP (CAC), do Departamento de Artes Cênicas da Unicamp e do Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas da ECA/USP. Organizada em Exercícios Cênicos, Estudos e Ensaios, a Mostra apresenta processos criativos gerados em diversos graus de co-laboração, congregando pensamentos e fazeres que dialogam estreitamente com a multi-cidade paulistana: olhares que iluminam as suas múltiplas contradições."

Prof. Dr. Felisberto Sabino da Costa

Chefe do Departamento de Artes Cênicas - CAC-ECA-USP

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010


Cartas para alguém?



Quem vive a interminável monotonia sente-se incapaz de mover-se. Esta idéia, dentre outras tantas, Anton Tchékhov nos ofereceu com suas obras, o inverno é a iminência de um porvir que não chega nunca. Monotonia. Tons únicos, acinzentados.

E quem assiste à monotonia, o que sente?
Nós espectadores, no calor de nossos invernos, se nos sentimos desconfortáveis, o que nos resta? O movimento de nossos corpos sobre o estofado da cadeira? O suspiro impaciente? O bocejo?

Começo este texto falando sobre a sensação de monotonia ao assistir ao espetáculo O Ruído Branco da Palavra Noite da companhia Auto-Retrato sentada numa poltrona à frente de alguém que certamente sentiu-se bastante incomodado com a situação que envolveu o espetáculo naquela noite. Não sei se era um homem ou uma mulher, se era velho ou criança, mas estava lá e de quando em quando exprimia o seu desconforto diante das cenas. Um desconforto em relação ao tempo prolongado da peça, ao ritmo das cartas recitadas, à simplicidade quase sentimental do corpo dos atores jogando com a ficção, a realidade presente e a realidade passada. Os sons que este alguém propagava no quase silêncio no teatro me fez recordar de uma das frases encontradas numa carta de Tchékhov sobre o coachar dos sapos em cena; segundo Tchékhov o barulho molhado dos sapos em meio ao vazio de sons trazia com precisão o silêncio para a cena, um silêncio puro, inteiro. Ouvir a ansiedade do alguém sentado na fileira de trás foi como ouvir sapos, e aqui não julgo os sapos como criaturas terríveis, não me senti desrespeitada em nenhum momento – acho importantíssimo lembrar desta experiência com os anfíbios para apresentar aqui uma problematização da peça.

O espetáculo apresenta o cruzamento de palavras escritas em cartas e de palavras escritas dramaturgicamente no final do século IXX por artistas do Teatro de Arte de Moscou; a partir de várias correspondências dos artistas do Teatro e fragmentos de peças de Tchéckhov (mais especificamente as quatro encenadas no Teatro de Arte de Moscou enquanto o dramaturgo ainda estava vivo: Tio Vânia, As Três Irmãs, O Jardim das Cerejeiras e A Gaivota) os atores traçam o percurso das inquietações de vários artistas em relação aos seus processos criativos. Não existe em cena, entretanto, a personificação de Stanislávsky, Dântchenko, Meyerhold, Olga Knipper ou Tchékhov, existe o discurso de todos, a declaração crítica e interpessoal sobre os pesares e os prazeres do ofício teatral.

Neste contexto a companhia Auto-Retrato encontrou a possibilidade de aprofundar uma pesquisa acerca do depoimento pessoal já desenvolvida nos primeiros trabalhos do grupo. Através da fala de conhecidos nomes do teatro russo, o grupo apresenta sua visão sobre a carpintaria cênica, de modo a conectar o passado e o presente num ponto de encontro que deveria ser fundamental em todos os processos teatrais: a matéria humana. Sob este ponto de vista o grupo apresenta um vínculo processual muito maduro com as obras escolhidas apresentando inclusive um ponto de vista que vai para além do naturalismo previsto na dramaturgia Tchekhoviana, compondo a cena com várias imagens metafóricas (tais como a fibra óptica transformada em árvores na cena do texto O Jardim das Cerejeiras e a intervenção de uma professora autoritária de interpretação na confissão aflita de Nina, a frustrada aspirante a atriz do texto A Gaivota), entretanto, durante o espetáculo são poucas as vezes que o espectador consegue atingir diálogo com esta ligação. A pergunta é: será que o espectador não iniciado na história do teatro e em suas teias de contextualização política, poética, teórica, consegue estabelecer uma conversa com aquilo que se vivencia em cena? A beleza da escrita de referências teatrais russas dá conta da experiência do espectador?

O processo cênico da construção de um pensamento está posto em cena. A inconclusão do pensamento artístico, as dúvidas que o rodeiam antes da finalização. As dúvidas que florescem em meio ao caos das idéias e oferecem novos mundos a serem revelados, mas qual a reverberação deles na presentificação teatral em O Ruído Branco da Palavra Noite?

Os casacos pesados sobre os atores nos fazem adentrar a atmosfera do inverno russo ou nos causam uma imensa agonia? Nós que somos e existimos em meio ao calor dos trópicos. Esta questão não se encerra nas opções cênicas do grupo, ela diz respeito a algo maior que deve ser pensado: a potência de interpretação que o público tem da obra é composta por diversos tons que não são apenas acréscimos transversais de leitura do espetáculo, a interpretação do público é feita de camadas descortinando a obra, colocando-a num espaço de diálogo com a realidade individual e a realidade coletiva presentes. Neste sentido as palavras que pulsam em cena parecem não bastar, muito pelo contrário, em poucos momentos elas oferecem ao espectador lacunas ou mistérios a serem desvendados; as cartas e as peças tornam-se uma espécie de manifesto de amor ao teatro, a exclamação dos atores sobre o próprio ofício, diante de uma platéia cujas interrogações ficam sem desdobramentos.




E eu aqui, diante de minhas cartas invisíveis, me pergunto: quanto eu contribuo de fato para quem me lê?




Paloma Franca

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Temporada TUSP 2010


















































(Luiz Alberto de Abreu, Maria Alice Vergueiro, Walderez de Barros
e os espetáculos "Meninas, Corram" e "Escuro")

O Grupo de Crítica do TUSP começa este ano anunciando a programação de teatro e de oficinas que terão início no dia 27 de janeiro com o espetáculo O Ruído Branco da Palavra Noite, dirigido por Caetano Gotardo e Marina Tranjan.

No dia 05 de fevereiro estréia o espetáculo Meninas, Corram! Dirigido por Juliana Ferrari que ficará em cartaz no TUSP até o dia 28 de fevereiro. Em março, dando continuidade à programação deste primeiro trimestre de 2010, o espetáculo Escuro dirigido por Leonardo Moreira.

O TUSP também oferecerá três oficinas de investigação cênica de literatura e dramaturgia com Walderez de Barros, Maria Alice Vergueiro e Luiz Alberto de Abreu.

A atriz Walderez de Barros conduzirá durante os dias 1,2,3,4 e 5 de fevereiro a oficina Ferramentas da Interpretação. Para realizar a inscrição os interessados devem enviar uma carta de interesse e seus dados curriculares para o TUSP até o dia 22 de janeiro de 2010.

A oficina Literatura e Teatro: Novas Configurações do Dramático será conduzida pelo jornalista e dramaturgo Luiz Alberto de Abreu e ocorrerá nos dias 8, 9, 10, 11 e 12 de fevereiro das 9h às 12h. Os interessados devem enviar carta de interesse e dados curriculares para o TUSP até o dia 26 de janeiro de 2010.

A atriz e diretora Maria Alice Vergueiro conduzirá a oficina Texto Sobre Textos também nos dias 8,9,10,11 e 12 de fevereiro das 15h às 17h. Os interessados devem enviar carta de interesse e dados curriculares para o TUSP até o dia 26 de janeiro de 2010.

Todas as oficinas ocorrerão no espaço do Teatro da USP.